//Mistério de fé numa terra dilacerada

Mistério de fé numa terra dilacerada

2017-01-18T12:37:56+00:00setembro 30th, 2016|Notícias|

Uma delegação da Fundação Pontifícia ACN (Ajuda à Igreja que Sofre) viajou à República Democrática do Congo em agosto com o objetivo de levantar as necessidades mais urgentes de Kivu, no leste do país, uma das regiões prioritárias para a ACN.

Como se apresenta a situação da República Democrática do Congo hoje?

Regina Lynch – diretora do departamento de projetos da ACN: Nos últimos 20 anos, o país tem sido local de guerra. De acordo com a Cruz Vermelha Internacional cerca de 5,4 milhões de pessoas morreram, direta ou indiretamente, pela guerra. O problema é que poucas pessoas estão atentas ao que está acontecendo lá, ninguém realmente fala sobre esse assunto. Não existe desenvolvimento na região ou quase nada. Na verdade em alguns lugares a situação piorou. Em 2012, o menor IDH das Nações Unidas era o do Congo.

Das suas experiências nessa viagem ao Congo, quais mais lhes entristeceram?

Pe. Martin Barta – assistente eclesiástico internacional da ACN: A sensação de insegurança é muito grande, as pessoas têm medo de ir ao interior do país, não se pode simplesmente sair e dirigir após às 18h porque há o risco de ser atacado ou raptado por vários grupos armados. Até mesmo na cidade, há sempre o perigo de ser roubado ou simplesmente levar um tiro, como nós ouvimos das pessoas que vivem lá.

Regina Lynch: Em razão dos raptos, na região de Goma, nós fomos aconselhados a não sair da cidade. Especialmente porque somos estrangeiros, somos considerados alvos em potencial. Nos últimos 9 anos, 7 padres foram assassinados. A violência e insegurança dominam as conversas. Ainda em Goma, nós visitamos as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Uma delas, a irmã Georgette, está lá há três anos. Ela começou trabalhando com jovens mães solteiras. Na região há muitos desabrigados. Acontece que as mulheres vão à floresta cortar lenha para cozinhar, e ali são atacadas e estupradas. Após isso, não são mais aceitas por suas famílias. Então a irmã Georgette acolhe as mães com os seus bebês e as mantém com ela por cerca de um ano, ensinando algum ofício. A irmã também tenta ajudá-las a lidar com o trauma por meio da Lectio Divina. No meio desse processo, ela acabou ficando com 80 orfãos que foram rejeitados por suas famílias ou achados nas ruas pelas irmãs. Elas fazem o seu melhor para ajudar. Atualmente, elas estão numa casa alugada, mas precisam ter seu próprio imóvel. Se a Igreja não estivesse lá, eu não sei quem cuidaria dessas mães e crianças…

Quais experiências da viagem foram as mais bonitas?

Regina Lynch: Uma das experiências mais bonitas para mim foi a celebração de jubileu de ouro das Irmãs Filhas da Ressurreição em Bukavu. O que elas têm feito nesses 50 anos é refletido na população local e na gratidão destes. As irmãs são muito próximas dos mais pobres entre os pobres. Ao mesmo tempo que são muito ativas pastoralmente, são muito boas no serviço de catequese. É bom ver como um grupo de simples garotas cresceu e se tornou uma congregação de 216 irmãs que, apesar dos momentos difíceis em que passaram e da violência que enfrentam, não perdem a motivação.

Pe. Martin Barta: Para mim isso é mistério da fé. Ver o perigo que as missionárias e também as pessoas enfrentam, e como elas superam essas dificuldades sem se desesperarem. As pessoas ali lidam com circunstâncias, nas quais o povo do mundo ocidental estaria completamente quebrado, não suportaria… As pessoas lá tendem a falar das suas dores e sofrimentos com compostura, nós não vimos ninguém chorar. Mas observá-los rezando e dançando durante a missa… era como se eles colocassem suas maiores aflições ali… Essa expressão de fé, que supera as condições subumanas em que vivem, foi muito forte para mim. Outra situação incrível ocorreu em Goma. Lá há uma prisão que foi fundada no tempo da colonização belga. Ela tem cerca de 70 anos e foi construída para suportar 150 presos. Agora ali se encontram mais de 2000. A irmã Kathrin do Instituto Germânico de São Bonifácio, que visita a prisão duas vezes por semana, nos levou lá com ela. Nós não imaginávamos o que encontraríamos. Os guardas nos deixaram entrar e de repente nos demos conta que estávamos dentro da prisão. Não havia celas, barreiras; nós estávamos literalmente no meio da prisão. E a irmã estava caminhando como uma inocente ovelha no meio dos prisioneiros, sem nenhuma aparente preocupação com o perigo da situação. A maneira como a irmã tratava os prisioneiros e sua natural autoridade me impressionou muito. A dedicação dessa irmã tinha muita influência sobre esses homens que a respeitavam muito. Ela foi uma enfermeira cuidando dos seus ferimentos e levou comida para os prisioneiros. A irmã Kathrin ainta está tentando tirar da prisão aqueles que cumprem a pena sem a culpa do crime.

Há algo dos parceiros de projeto disseram que gostariam de partilhar?

Pe. Martin Barta: Nós visitamos as Irmãs Trapistas em Murhesa, próximo a Bukavu. Elas são de uma ordem contemplativa, e é incrível ver esse modo de vida no meio dessa área violenta. As irmãs estão em constante perigo. Uma delas foi morta em 2009; levou um tiro na porta de entrada do monastério. Mas elas continuam lá orando por toda a região e clamando pela paz. Há entre elas uma irmã francesa de 90 anos de idade – somente duas irmãs são estrangeiras, as demais são congolesas. Nós a perguntamos qual é o seu carisma e ela respondeu: “Buscar a Deus na simplicidade e no amor, a todo momento”.

Regina Lynch: Nós também perguntamos a um padre em Goma, Pe. Juvenal, quem está trabalhando na chamada zona vermelha, uma das mais perigosas, porque as pessoas permanecem lá? E ele disse: “As pessoas falam: ‘nós ficamos porque os padres ainda estão aqui'”. Isso provavelmente é uma realidade de toda a região. E não se refere só aos padres, mas também às irmãs. Na verdade, as pessoas ali permanecem enquanto a Igreja também permanece. A Igreja leva Deus a eles, e onde Deus está, há esperança e luz no meio da escuridão.

Quais projetos a ACN apoia na República Democrática do Congo atualmente?

Regina Lynch: Na parte leste do Congo nós ajudamos, entre outras coisas, na construção de casas para padres e igrejas e na formação do clero. Na região de Bukavu, temos um certo número de projetos para reconstrução de instalações em razão dos terremotos de 2005 e 2008. Nós também fornecemos ajuda à subsistência para religiosas, em particular para as Filhas da Ressurreição. Essas irmãs estavam no caminho para serem autossuficientes, mas então foram forçadas a fecharem 7 das suas casas; algumas irmãs foram mortas. Outro importante projeto é o apoio aos retiros anuais dos padres, porque a pressão psicológica sobre eles é muito alta. Também há intenções de missa e ajudamos o apostolado nas famílias que é muito forte lá.

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