//Mianmar: “O Presidente não tem o exército sob seu controle”

Mianmar: “O Presidente não tem o exército sob seu controle”

2015-08-26T13:37:42+00:00junho 24th, 2013|Notícias|

O Arcebispo de Rangoon, Myanmar, Dom Charles Bo, vê com ceticismo os passos no processo de reforma política neste país que sofreu com graves e recentes conflitos étnicos. Em uma atividade organizada na Alemanha pela associação católica internacional “Ajuda à Igreja que Sofre”,o prelado afirmou que “a mudança democrática no país não foi produzida de forma tão repentina no ano 2001 como descreveram muitos comentaristas. Na verdade, o Governo militar preparou durante muitos anos estas reformas para evitar as sufocantes sanções que seriam produzidas por parte dos Estados Unidos e seus aliados”.

Ao mesmo tempo o bispo expressa preocupação pelo comportamento do exército durante os recentes confrontos entre os diferentes grupos étnicos no país. “O Presidente Thein Sein parece ser um homem forte. Entretanto, parece não ter o exército sob seu controle”, critica o bispo.

Junto ao Arcebispo, o padre salesiano Charles Saw falou do panorama geral do respeito aos Direitos humanos em Mianmar (a antiga Birmânia).“Em geral observa-se certo descuido, por exemplo no trato com as divisas. Antes pessoas poderiam ser condenadas a sete anos de prisão por possuir um dólar”, comentou.

Também a liberdade de expressão é tomada agora com mais seriedade, disse o salesiano. Com certa pitada de humor ele diz: “Antes só éramos livres de expressar a opinião antes dos acontecimentos; agora, também somos livres para fazê-lo depois”. Apesar dessas melhorias, ainda há “resíduos” e transgressões inaceitáveis dos direitos humanos em Mianmar, um Estado essencialmente pluriétnico. “Para chegar aos altos cargos e posições de poder é preciso pertencer à etnia dos birmanos e, além disso, ser budista”, comentou o Arcebispo Bo. Com essas condições, pelo menos 30% da população fica excluída dos cargos públicos.

Outro problema — comentou o padre Saw — são os distritos administrativos de Mianmar, criados artificialmente pela ditadura militar. “Os limites foram estabelecidos sem levar em consideração as fronteiras tribais tradicionais existentes e os grupos étnicos que ali vivem; agora, ao mando destes distritos, se encontram militares dos mais altos escalões”, lamenta o sacerdote.

“Muitas de nossas minorias vivem em regiões muito ricas em matérias-primas. Essas pessoas participam, na minha opinião, de maneira insuficiente na riqueza de seu país”, disse por outra parte o Arcebispo da capital Rangoon.

Esse conflito étnico se espalhou dos recentes confrontos sangrentos entre budistas e muçulmanos em Mianmar, os quais no Ocidente foram divulgados como conflitos “devido a razões religiosas”. “Os birmanos são por via de regra budistas; os pertencentes às minorias costumam ser muçulmanos, hindus ou cristãos”, explicou ainda o padre Saw.

“A religião acrescentou uma carga na verdade adicional para um conflito de natureza étnica. Tanto na minoria muçulmana como na maioria budista existem alguns fanáticos. Mas os líderes religiosos budistas, muçulmanos, cristãos e hindus já se reuniram juntos à mesa de negociações para solucionar este problema”, afirmou.

Por último, o Arcebispo apelou aos Estados Unidos e à União Européia para que continuem vigiando o processo de democratização de Mianmar: “Necessitamos do apoio da comunidade internacional para avançar no nosso processo de reforma”, assegurou.

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