//Mali: em busca da paz

Mali: em busca da paz

2018-05-11T16:37:35+00:00julho 18th, 2017|Notícias|

De acordo com o “Relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo”, publicado pela ACN – Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, o Mali decaiu em caos em março de 2013, após um golpe militar. Quando os jihadistas e grupos rebeldes ameaçaram invadir todo o país, a França, que exerceu poder colonial sobre o Mali até 1960, interveio militarmente. Em 2015, o governo maliano assinou um acordo de paz em Bumako com uma parcela dos grupos rebeldes armados. Enquanto o sul do país é considerado relativamente seguro, a situação no norte é tensa.

No dia 21 de maio, a Igreja no Mali celebrou a indicação do Arcebispo Jean Zerbo como cardeal. O Cardeal Zerbo, nomeado oficialmente em 28 de junho, é o primeiro cardeal do Mali. O bispo da diocese de Kayes, Jonas Dembélé, falou sobre a situação dos cristãos no país durante sua visita à ACN. Ele expressou seu desejo de paz, ainda tênue no Mali, apesar de algumas pequenas melhorias. Em 2016, a ACN contribuiu com mais do equivalente a 800 mil reais em projetos no Mali.

Como os cristãos malianos reagiram à nomeação do novo cardeal?

A nomeação foi anunciada no Mali no dia 21 de maio e foi recebida pela população com alegria e entusiasmo. E não apenas pelos cristãos! Os muçulmanos também expressaram sua alegria. Um representante do governo telefonou para o cardeal para felicitá-lo por sua nomeação. Nós, cristãos no Mali, somos gratos ao Papa por essa honra que ele concedeu à nossa Igreja, que consegue fazer ouvir sua voz no Mali, embora seja minoria.

Quão estável o senhor acredita estar a situação no Mali pós os recentes notáveis ataques em Bamako e Timbuktu?

A paz continua precária. Entretanto, apesar da situação se manter instável, os acontecimentos que sacudiram o país se deram em 2011 e já não afetam a vida cotidiana da população. Na minha diocese de Kayes, oeste do Mali, seguimos com uma vida normal e os sacerdotes não estão sob ameaça. Muçulmanos e cristãos ainda estabelecem diálogo lá, como também no resto do país. As exceções aqui são Kidal, Gao e Timbuktu, onde os sacerdotes não podem entrar livremente. Fora isso, nosso trabalho missionário pode continuar como de costume em outros lugares do país.

Como é o relacionamento entre a Igreja e o governo do Mali?

Como sempre, a Igreja mantém boas relações com o governo, que se comprometeu energicamente com a questão das escolas, do sistema de saúde e do desenvolvimento sustentável. A população respondeu positivamente a isso porque nossos esforços são direcionados na população como um todo no Mali, sem exceção. O governo sempre buscou colaboração com a Igreja e com a Conferência Episcopal.

O Mali é uma república secular, mas certos grupos ainda buscam claramente estabelecer um estado islâmico.

Isso é verdade. É dito repetidamente que os muçulmanos representam a maioria no Mali. E, como vivemos em uma democracia, algumas pessoas querem explorar esse fato, com base no princípio: “Somos a maioria e por que devemos permanecer em um estado secular quando os muçulmanos compõem 95% da população maliana?” Mas o Mali decidiu sobre a separação de religião e estado há muito tempo. Essa decisão não veio dos cristãos ou dos adeptos das religiões tradicionais. Embora sejam muçulmanos, até mesmo os intelectuais malianos sabem que, no mundo moderno, a secularidade é a condição essencial para uma coexistência mais pacífica. Mas os políticos às vezes sucumbem à tentação de orientar-se demais sobre os interesses de determinados grupos de quem eles dependem. Essa não é uma situação fácil.

 

Dom Dembalé e Imã
Dom Dembalé e Imã

 

A Igreja tem mantido tradicionalmente um bom relacionamento com os islâmicos?

O Mali tem sido exemplo de um bom diálogo entre cristãos e muçulmanos para toda a África Ocidental. A forma maliana do islamismo é mais tolerante. Isso continua, mas desde 2008 observamos uma arabização gradual do islamismo, o que torna a situação mais difícil como um todo. Nas aldeias você normalmente encontra famílias que incluem cristãos, muçulmanos e adeptos das religiões tradicionais. Infelizmente, podemos ver hoje um crescimento de certos grupos intolerantes.

Como você avalia o futuro do Mali? Como a paz poderia ser estabelecida?

Há motivo de esperança. Estamos tentando conscientizar as pessoas sobre o fato de que, se quisermos construir a paz, teremos que começar em nossas próprias famílias. Só então poderemos continuar com nossos esforços em nossos distritos, aldeias e regiões para permitir que a paz se espalhe por todo o país. Também pedimos aos políticos que se concentrem em particular no bem-estar dos malianos e que deem prioridade ao bem comum sobre os interesses de grupos individuais que não têm intenções pacíficas. Existem indivíduos de boa vontade que já estão trabalhando nessa direção com o apoio da comunidade internacional e da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental). Há sinais de melhoria, embora não possamos esperar que a crise já tenha acabado no final do ano.

One Comment

  1. CLÁUDIO ANANIAS FREYRE. 9 de agosto de 2017 at 16:39 - Reply

    muito bom o relatório da ajuda á igreja que sofre,seja no Brasil ou no mundo

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