//Luta pela sobrevivência no Sudão do Sul

Luta pela sobrevivência no Sudão do Sul

2018-03-13T17:48:58+00:00janeiro 26th, 2017|Notícias|

Sudão do Sul, localizado no coração da África, é uma das nações mais jovens do mundo. Ganhou sua independência do Sudão em julho de 2011. Dois anos mais tarde, estourou uma guerra civil, entre o dominante Exército de Libertação Popular do Sudão (Sudan People’s Liberation Army -SPLA) e a oposição. O conflito tornou-se desde então uma guerra tribal brutal. O “Acordo sobre a Resolução do Conflito na República do Sul do Sudão”, assinado por ambas as facções em agosto de 2015 trouxe paz temporária. O conflito ressurgiu em meados de 2016 e persiste até hoje. Enquanto isso, os cidadãos comuns do Sudão do Sul sofrem com a fome e são capturados no conflito. A ONU calcula que há 1,7 milhões de deslocados internos no país, 75% destes estão lutando para sobreviver nos três estados mais atingidos pelo conflito: Unity, Upper Nile e Jonglei.

A ACN (Ajuda à Igreja que Sofre) falou recentemente com um agente de pastoral no Sudão do Sul que,  preferindo permanecer anônimo, explica as raízes da crise e descreve a situação das pessoas.

ACN: Você poderia descrever a situação política no Sudão do Sul?

O partido do presidente (SPLA) venceu a batalha contra o ex-vice-presidente. Ele representa uma das principais tribos do Sudão do Sul. A situação é muito complexa, já que as várias tribos estão sendo capturadas nos combates ou brutalmente reprimidas pelo exército, que as considera “rebeldes”. O exército é responsável pelo assassinato de civis inocentes e pela destruição de suas casas. A região tem uma história complexa, marcada por muitas guerras. O Sudão do Sul, cuja população é de maioria cristã, rompeu com o Sudão, de maioria islâmica.Além disso, a cultura tribal tradicional local ainda não teve o benefício do desenvolvimento econômico, social e político.

Qual o papel da cultura tribal no conflito?

Há uma mentalidade predominante que a tribo é a unidade social mais importante e que todos têm de servir às tribos, dirigidas por conselhos de anciãos, até hoje. Muitas tribos coexistem no Sudão do Sul lutando por vacas como símbolos de poder e riqueza. O conflito nunca foi enraizado no ódio ou no genocídio. A busca da riqueza era a causa de qualquer luta. Em suma, o povo do Sudão do Sul não tem um sentimento de identidade nacional. Sua lealdade à sua tribo vem em primeiro lugar – o que muitas vezes leva ao conflito.

O que está acontecendo hoje, no entanto, é que os líderes de diferentes tribos lutam, não por vacas, mas por poder político e dinheiro (petróleo, madeira, minerais, etc.). Essas elites se preocupam mais com a sua própria vantagem do que com o bem-estar das pessoas, muitas das quais estão famintas. A inflação no país bateu 800 por cento!

Talvez o pior aspecto do conflito é que os líderes tribais apresentam sua luta pelo poder político e econômico como um conflito étnico, o que definitivamente não é. Os membros das diferentes tribos não se odeiam. Eles são traumatizados por intermináveis guerras e conflitos e querem uma sociedade pacífica, mas a ambição de seus líderes é um obstáculo à paz.

Qual é o impacto do conflito sobre os cidadãos comuns?

As pessoas sofrem de muitas maneiras. Primeiro, elas têm que deixar suas terras quando o conflito irrompe. Elas perdem todas as suas posses: gado, casas, terra. Se tornam deslocados ou fogem do país para viverem como refugiados. Em ambos os casos, são forçados a viverem em campos onde há falta de comida e água, onde não há escolas, onde, em suma, não há futuro. A vida comum não pode prosseguir – as pessoas estão tentando apenas sobreviver.

A maioria das famílias perdeu entes queridos na luta. Alguns foram recrutados à força, até mesmo crianças. As mulheres sofrem estupro e violência, e depois são estigmatizadas por serem violadas. A inflação é tão alta que as pessoas quase não conseguem comprar nada, e ficam completamente dependentes da ajuda internacional, o que não é suficiente. Há uma grave escassez de cuidados médicos, em particular, e há um número crescente de mortes entre os idosos, mulheres e crianças.

Há quem use o termo “limpeza étnica”. Isso é apropriado?

Novamente, não há ódio étnico entre as pessoas de diferentes tribos. Mas a aversão é causada pelas ações dos líderes do país, ou, às vezes, pelo desejo de vingança após tanto sofrimento. Uma tribo local que sofre ataques do exército, com a maioria dos soldados pertencentes a uma tribo diferente, reagirá naturalmente contra essa tribo e entrará no que então parece ser um conflito étnico.

Você poderia mencionar incidentes específicos em que você foi atingido em particular?

Dois agentes de um de nossos projetos – identificados como supostos rebeldes porque não queriam se unir ao exército pela força, nem se render – foram torturados e queimados vivos dentro de seus pequenos “tukuls” (casas). Isso aconteceu há algumas semanas. Com uma igreja local como base, estamos ajudando mais de 3 mil pessoas que escaparam de suas casas, temendo o mesmo destino. Em outra comunidade, apenas as casas das pessoas pertencentes a uma determinada tribo, à qual não pertencem os líderes locais, foram saqueadas e destruídas. Seus proprietários perderam tudo o que possuíam. Casas queimadas e cadáveres são visões comuns por aqui.

Qual é o trabalho que você está fazendo no país?

Estamos capacitando as pessoas, permitindo-lhes construir uma sociedade mais justa e pacífica. Trabalhamos com a Igreja Católica local, formando enfermeiros, parteiras e trabalhadores agrícolas. Também estamos treinando agentes pastorais, preparando-os para o trabalho de evangelização, bem como esforços de construção da paz e reconciliação.

Também coordenamos centros de estudantes. Eles vêm de tribos diferentes e vivem e estudam juntos, pacificamente, construindo uma mentalidade de unidade entre si como um baluarte contra o ódio étnico. Estes alunos tornam-se parte de comunidades internacionais, que incluem religiosos e religiosas, pessoas de uma variedade de culturas. O resultado é um testemunho vivo de que a unidade e a fraternidade são possíveis no Sudão do Sul. Proporcionamos aos alunos não só uma formação acadêmica e profissional, mas também uma formação humana e espiritual que pode ajudar a trazer mudanças reais para o país.

Como o conflito afetou seu trabalho?

O conflito nos afetou de diferentes maneiras: todos estamos vivendo um grande estresse por causa da situação de insegurança. Nossa própria comunidade sofreu ataques de diferentes facções. Houve até mesmo um caso de estupro. Fomos roubados e fomos obrigados a fechar uma das nossas missões. É muito difícil encontrar comida e obter dinheiro. Temos que aumentar as medidas de segurança através da instalação de iluminação permanente e da construção de muros e organizar os programas de formação dos alunos de tal forma que façam o trajeto até suas casas apenas uma vez, evitando os perigos da estrada e o alto custo de viajar. Está provado que é cada vez mais difícil substituir membros de nossas comunidades que vão embora por causa de todo o perigo. Mas continuamos empenhados em servir ao povo do Sudão do Sul com o melhor de nossas habilidades, porque esta é nossa missão e vocação.

Desde a independência do Sudão do Sul, a ACN apoia projetos no país.
A ajuda se destina ao suporte pastoral, à infraestrutura de igrejas, ao auxílio de emergência e de subsistência.

4 Comments

  1. Marilei de Fátima lik 10 de fevereiro de 2017 at 22:15 - Reply

    Vocês serão vitoriosos, com Cristo Jesus , os q choram agora sorridentes estarão no dia glorioso

  2. Dennis Géa Zschaber Nogueira 26 de fevereiro de 2017 at 13:39 - Reply

    Bom dia , eu soube recentemente dessa situação no Sudão do Sul. Sou engenheiro agrônomo, gostaria de ajudar esse país a produzir alimentos ou por meio de algum outro trabalho , como posso faze-lo.

  3. Santos Sampaio 2 de março de 2017 at 18:08 - Reply

    Que o bom Deus continue iluminando o trabalho destas 2 entidades,AIS e ACN. Isto alarga os caminhos que conduz a vida eterna juntos do Pai.Fasso votos,que os comentários,transformem em ajudas materiais ,também.

  4. JAIRO DE CASTRO ALMEID 4 de abril de 2017 at 12:10 - Reply

    FAÇO MINHA APROVAÇÃO INCONDICIONAL A TODOS PELA LISURA, AS FORMAS DE CUIDAR DESTES DRAMAS COM PLENA FRATERNIDADE E SOLIDARIEDADE MINIMIZANDO DORES, TRAUMAS, DOENÇAS, DESESPERANÇA E ENFRAQUECIMENTO ESPIRITUAL. A DECEPÇÃO CONSCIENTE OU NÃO É UMA ARMADILHA PARA A ALMA. NELA GERMINA O ÓDIO, VINGANÇA , EXECUÇÃO E OUTROS MAL. A MALIGNIDADE TAMBÉM PODE SER ADAPTADO COMO ATO COMUM, POIS SOMOS DOTADO NO MUNDO DAQUILO QUE NOS APRESENTA COMO ACIDENTES DA NATURALIDADE. ESTAMOS NO SÉCULO VINTE E UM, SOMOS COMOVIDOS PELA BRUTALIDADE PRIMITIVA , AS FORMAS EXISTENTE DA VIOLÊNCIA SÃO VARIADAS, NÃO DAMOS ATENÇÃO DO PRINCÍPIO, QUE É O GENOCÍDIO. ESTAS TRAGÉDIAS NÃO EXISTE NO BRASIL TÃO MENOS ESTE PROFUNDO EGOISMO CONCENTRADO NO EGO COM PLENA BRUTALIDADE ENTRE IRMÃOS. SOFREMOS DE OUTROS MAU COMO A CORRUPÇÃO E A GANANCIA DE MUITOS, MAS TEMOS LIBERDADE DE EXPRESSÃO. DESEJO QUE A BENEVOLÊNCIA SEJA O QUANTO ANTES A FONTE GERADORA DE SOLUÇÃO PARA ESTE POVO, E QUE SEJA IMPLANTADO,E MULTIPLIQUE TODOS OS BENS DA CONSCIÊNCIA HUMANÍSTICA A FAVOR DA SOBREVIVÊNCIA E FELICIDADE NO SUDÃO E EM TODO O MUNDO.

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