//Do Inferno ao Vale dos Cristãos

Do Inferno ao Vale dos Cristãos

2017-05-12T13:52:49+00:00dezembro 7th, 2016|Notícias|

Era uma família normal, com cinco filhos, trabalho, rotinas. Hoje, quando recordam o que aconteceu, em Raqqa, (cidade transformada na “capital” dos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico na Síria), não conseguem disfarçar a dor, a inquietação. Até o medo. Hoje estão em segurança, no chamado Vale dos Cristãos, a 45 quilômetros de Homs, um espaço em que centenas de famílias se refugiaram depois de terem fugido da mais inacreditável violência, da mais que provável morte. Ainda hoje, quando falam da sua história, pedem para não revelarmos os seus nomes.

“Vivíamos em paz,” começou a mulher. “Tínhamos bons vizinhos muçulmanos, com quem mantínhamos boas relações. Os nossos filhos eram amigos. Um dia chegaram bandos de homens armados, da Frente al Nusra e tudo mudou. Eles forçaram a entrada na minha casa. Conheciam bem a casa em que estavam entrando. “Queremos os homens da casa”, disseram. Mas não acharam nenhum. Eu reconheci meus próprios vizinhos muçulmanos pelas vozes. Ainda me pergunto como isso é possível!

Leis rigorosas passaram a vigorar para todas as pessoas, as mulheres são obrigadas a usar o hijab, cobrem todo o corpo, menos os olhos. Polícias de farda por todo o lado. Pessoas são açoitadas na rua, mutiladas em julgamentos sumários. Tudo em nome do Islã. Eles, os cristãos, foram obrigados a pagar um imposto, a Jizya, ou a se converterem. Uma coisa ou a outra. Ou então a morte.

Quando julgavam que o ‘inferno’ tinha chegado em Raqqa, apareceram os jihadistas do Estado Islâmico (EI). E tudo se tornou muito pior ainda. Todos os dias alguém era chicoteado nas praças. Todos os dias alguém era pendurado nos postes, apedrejado, decapitado, crucificado, como exemplo do tratamento dado “aos infiéis”. Todos os dias os cristãos sofriam mais e mais ameaças. “Forçar mulheres e crianças de 12 anos a se casar com soldados ‘mujahideen’, criar um mercado para a troca e venda de mulheres cristãs ou curdas como escravas era o seu veredito mais suave.” O imposto, a conversão ou a morte. Raqqa já não era mais uma cidade: era uma prisão.

“Um dia, chegaram na casa de uma vizinha e disseram que um dos homens do EI queria ‘casar’ com a filha dela. A vizinha chamava-se Uma Yakub. Ela veio aos gritos, alarmada, nos pedir ajuda. Quando regressou a sua casa, a filha tinha se suicidado, cortado os pulsos… O oficial regressou no dia seguinte e soube o que tinha acontecido. Ele prendeu a nossa vizinha, Uma Yakub, e a condenou a ser açoitada na praça mais importante da cidade. Estávamos lá enquanto a açoitavam. Uma Yakub estava tão perturbada que desatou a gritar e a chamá-los de infiéis criminosos e inumanos até que um dos oficiais disparou sua arma na cabeça dela. Morreu imediatamente!” contou-nos a mulher, desfeita em lágrimas.

Não era possível continuar nem mais uma hora ali. Suas filhas poderiam ter o mesmo destino, seriam eles os próximos a serem assassinados também… Com a ajuda de um vizinho, que os alertou do perigo imenso que corriam, toda família partiu para a estrada. Foram horas e horas de uma viagem alucinante, com cadáveres nas ruas, homens, mulheres e crianças, todos vítimas da barbárie mais cruel que se pode imaginar. “De vez em quando os nossos filhos diziam, apontando para um cadáver: ‘Olha este é o meu amigo John. Este é o nosso vizinho Jamil.’ E nós dizíamos rapidamente: ‘Não olhem. Continuem!’”

Ao fim de 17 horas, chegaram a um acampamento de nômades. No dia seguinte, disfarçados com as roupas dos nômades que os acolheram, se colocaram de novo na estrada, a caminho do Vale dos Cristãos. Por graça de Deus estão vivos. Ali encontraram a ajuda da Igreja local, através da generosidade dos benfeitores da ACN. Esta família alimenta a esperança de que o pesadelo vai terminar um dia e que ainda será possível regressar para casa.

“Somo gratos aos benfeitores da ACN por tudo o que nos ofereceram naquele momento e que continuam a nos oferecer todo mês. Não temos palavras para agradecer a comida, os colchões, cobertores, mas principalmente pela sua generosidade de não esperar nada em troca. Muito obrigado!” … Essa história se soma comtantas outras, presentes ali, no Vale dos Cristãos. São centenas as famílias que estão no Vale e que são totalmente dependem da nossa generosidade para sobreviver.

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