//Companheiros de jornada ao longo do século 20

Companheiros de jornada ao longo do século 20

2014-04-22T13:22:02+00:00 Abril 22nd, 2014|Notícias|

Foi em 27 de abril de 2002, quando os dois amigos se viram pela última vez. Durante décadas Karol Wojtyla e Padre Werenfried van Straaten, fundador da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), foram companheiros de jornada, por assim dizer. Agora, exatamente 12 anos depois do último encontro, o Papa João Paulo II será canonizado em Roma.

Quando o Papa João Paulo II deu ao seu amigo, Padre Werenfried, o círio pascal de sua própria capela particular, foi um gesto de forte simbolismo. Eles haviam acabado de celebrar a Santa Missa juntos pela última vez. Ninguém nos deu uma mais bonita descrição deste último encontro que o jornalista italiano Orazio Petrosillo, falecido em 2007. Ele teve o privilégio de testemunhar este momento. “Ambos foram às lágrimas”, escreve ele. “Quantas vezes pensaram um no outro, oraram um pelo outro? Agora estavam se encontrando novamente, o Santo Padre e seu amigo, o Padre Werenfried. Ambos marcados pela velhice e pela doença, mas ainda assim cheios de vida e carisma. Após a Missa eles se abraçaram na biblioteca privada. Poucas palavras, olhares longos e lágrimas de emoção.”

Eles já se conheciam muito antes de Karol Wojtyla se tornar Arcebispo de Cracóvia, em 1964. Como representante da Conferência dos bispos poloneses, o homem que mais tarde se tornaria Papa veio por muitos anos ao encontro do Padre Werenfried para discutir projetos de ajuda para a Igreja em sua terra natal, dominada pelo regime comunista. A primeira batalha travada pelo jovem arcebispo, juntamente com o Padre Werenfried, ocorreu em 1967, quando os comunistas construíram um vasto subúrbio operário para 200.000 pessoas, perto do enorme complexo siderúrgico de Nova Huta. Foi planejada para ser uma “cidade sem Deus”. No desejo de impor o ateísmo, a cidade tinha sido projetada sem nenhuma igreja. No entanto, domingo após domingo, apesar de todos os esforços para detê-los, os fiéis se reuniram aos milhares para assistir à Santa Missa, que era celebrada ao ar livre, de pé e em frente a uma cruz que haviam erguido. Foram muitas as tentativas empregadas pelos comunistas para impedir, mas finalmente – com a ajuda financeira da AIS – uma grande igreja foi construída ali, suficiente para acomodar 5.000 fiéis. Em 1977, a igreja foi consagrada pelo arcebispo Wojtyla. Esta vitória conjunta sobre o regime também foi uma grande fonte de encorajamento para a Igreja nos países vizinhos da Europa Oriental, que sofriam igualmente sob a dominação comunista.

Ambos acreditavam firmemente que a Cortina de Ferro chegaria ao fim no dia em que Deus voltasse a esses países, até então fechados por um regime ateu. Ambos eram intransigentes e destemidos em falar a verdade e desmascarar os inúmeros ataques a Deus e ao homem, como, ultimamente, a obra do maligno. O “Politicamente correto” e a opinião dominante não eram a medida de seus pensamentos.

No esforço pela reconciliação foram também aliados e profetas. Foi assim que, após o colapso do comunismo, o Papa João Paulo II confiou ao Padre Werenfried a tarefa de promover a reconciliação com a Igreja Ortodoxa Russa. Mesmo em idade avançada, o Padre Werenfried imediatamente viajou para a Rússia e, em duas ocasiões, encontrou-se com o Patriarca Alexis II e uma série de bispos ortodoxos, a quem ele prometeu suas orações e ajuda. A Igreja Ortodoxa na Rússia foi obrigada, depois de mais de 70 anos de perseguição, a começar de novo quase do zero, assim como a Igreja Católica no país. O Papa se manteve totalmente atualizado com as duas viagens do Pe. Werenfried à Rússia e atribuiu a maior importância ao ser informado pessoalmente de cada e qualquer desenvolvimento.

Foi o Papa João Paulo II que proferiu estas palavras memoráveis: “Precisamos dos dois pulmões – tanto o ocidental quanto o pulmão oriental – com o qual o cristianismo respira.” Desde então, imagens de bispos ortodoxos indo e vindo no Vaticano e de líderes de igrejas católicas que visitavam seus irmãos bispos ortodoxos tornaram-se quotidianas. Ao longo do tempo, muitas amizades foram estabelecidas, e a história recente comprova uma verdadeira enxurrada de encontros ecumênicos, coisa que há 20 anos atrás quase ninguém teria ousado sonhar. Entre o punhado de pessoas que, de fato, se atreveram a fazê-lo estavam o Papa João Paulo II e Padre Werenfried.

Ainda hoje a AIS permanece fiel a essa missão, que foi também reafirmada com frequência pelos sucessores deste grande Papa e santo. Recentemente, o cardeal Kurt Koch, presidente do pontifício conselho para a promoção da unidade, chamou mais uma vez a Ajuda à Igreja que Sofre para continuar a abrir os caminhos do diálogo.

Um fator que desempenhou grande influência no pensamento e na obra destes dois grandes homens foi a grande devoção à Mãe de Deus – e que também une os fiéis católicos e ortodoxos de uma forma particular. Assim, foi sem dúvida providencial que o ícone de Nossa Senhora de Kazan, ícone mais venerado na Rússia, encontrasse “asilo católico” por assim dizer, durante a era soviética. Depois de encontrar o seu caminho para o santuário de Nossa Senhora em Fátima, durante a década de 1960, foi dado ao Papa João Paulo II, em 1993, como um presente. O Papa manteve a imagem em seus aposentos privados e a reverenciava profundamente. Então, em 2004 o ícone retornou à Igreja Ortodoxa Russa. Durante o culto comemorativo, antes de se despedir do Kazanskaya, o Papa disse: “Quantas vezes chamei Nossa Senhora de Kazan e lhe pedi para proteger e guiar o povo russo, por quem ela é tão grandemente reverenciada, e trazer rapidamente o momento em que todos os discípulos de seu Filho poderão se reconhecer como irmãos e, dessa forma, restaurar a unidade danificada”.

Tanto o Papa João Paulo II como o Padre Werenfried tinham uma ligação profunda com o santuário de Nossa Senhora em Fátima, onde há 30 anos o ícone de Nossa Senhora de Kazan tinha encontrado abrigo. Nas mensagens dadas, em 1917, por Nossa Senhora aos três pastorinhos, eles viram uma solene advertência para os perigos do comunismo e o ateísmo, que deveriam ser enfrentados. O Papa João Paulo II atribuiu sua sobrevivência no atentado contra sua vida em 13 de maio de 1981 a intercessão de Nossa Senhora de Fátima e, a bala que quase o matou, foi transformada em ornamento da coroa de Nossa Senhora. Padre Werenfried foi convidado a concelebrar com o Papa João Paulo II na Santa Missa em Fátima no dia 13 de maio de 2000 em que o Papa beatificou os dois pastorinhos Francisco e Jacinta. Padre Werenfried recordou mais tarde a procissão à luz de velas durante a noite, na qual ele foi levado em sua cadeira de rodas no meio de aproximadamente um milhão de peregrinos, como um dos pontos altos de sua vida.

Os dois companheiros de viagem estão agora unidos mais uma vez no céu. Um deles será canonizado em 27 de abril deste ano – exatamente 12 anos após o último encontro deles. Juntos, eles testemunharam muitos dos momentos históricos do século 20. Eles lutaram lado a lado, sempre numa via profética, o que os fazia muitas vezes incompreendidos. O legado deixado por eles é imenso. A Ajuda à Igreja que Sofre tem o compromisso de proteger esse legado até hoje. Orazio Petrosillo descreveu a despedida dos amigos com estas palavras: “Papa João Paulo II pôs a mão no ombro de seu velho amigo (padre Werenfried). Foi o seu gesto, como sucessor de Pedro, confirmando uma obra da Providência, como a AIS, com o original carisma do Papa.”

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