//Centenário da Revolução de Outubro: Cristãos perseguidos ontem e hoje

Centenário da Revolução de Outubro: Cristãos perseguidos ontem e hoje

2017-10-23T18:12:19+00:00outubro 19th, 2017|Notícias|

7 de novembro de 2017 marca o centésimo aniversário da Revolução de Outubro na Rússia. A Revolução tornou-se uma violenta guerra civil e culminou com o estabelecimento da União Soviética comunista: uma ditadura violenta ideologicamente enraizada no Marxismo, Leninismo e Stalinismo. Isso deu inicio a um dos piores períodos de perseguição na história da Igreja. Agora, 100 anos depois, são os cristãos no Oriente Médio que estão sendo perseguidos. E é a Igreja Russa, antes perseguida, que está trabalhando junto com a Fundação Pontifícia ACN – Ajuda à Igreja que Sofre – para ajudar aqueles que hoje são os perseguidos.

A entrevista com Peter Humeniuk, chefe do departamento de projetos da ACN para a Rússia e Ásia Central, foi feita por Maria Lozano.

O dia em que se comemora a Revolução de Outubro é uma data importante na Rússia?

Muito importante: este é um período marcado por uma das piores perseguições aos cristãos da era moderna e talvez da história. Nós não devemos nos esquecer o quanto a Igreja Ortodoxa Oriental, a qual o Concílio Vaticano II se refere como “Igreja irmã”, sofreu durante os tempos da União Soviética. Vinte anos apos a Revolução de Outubro, restavam apenas 100 igrejas das 60.000 que antes existiam. 15.000 padres foram assassinados nos dois primeiros anos que seguiram à Revolução. Mais de 300 bispos foram executados ou morreram nas prisões. A região atingida por uma das piores perseguições aos cristãos se estende desde Kalingrado, nas margens do Mar Báltico, até o Oceano Pacifico.

Esta é a razão pela qual a perseguição aos cristãos é um assunto tão importante para a Igreja na Rússia?

Certamente podemos traçar um paralelo entre o ocorrido nos últimos 100 anos, desde a Revolução de Outubro e os eventos que estão se desenvolvendo no Oriente Médio. A Igreja russa passou muito recentemente pelo mesmo o que os nossos irmãos do Oriente Médio estão passando agora. Esta é a razão pela qual os russos não podem aceitar isso como mais uma notícia, enquanto existe uma tentativa de banir o cristianismo de alguma região.
O Papa João Paulo II era muito consciente daquilo que é conhecido como o “ecumenismo dos mártires”. Com isto em mente, foi seu desejo sincero ver as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa crescerem próximas. Este desejo foi compartilhado pelo Padre Werenfried van Straaten, fundador da ACN. Ele dedicou toda sua vida trabalhando para esta reconciliação.

A ACN está continuando seu trabalho, principalmente iniciando campanhas solidarias para os cristãos perseguidos na Síria. Como esta cooperação se desenvolveu?

Esta cooperação é um dos resultados práticos do encontro histórico do Papa Francisco com o Patriarca Kyrill em fevereiro de 2016 em Cuba. O encontro alavancou uma série de projetos conjuntos para a Síria e que estão sendo organizados pela Igreja Católica Romana na Rússia e pelo Patriarcado de Moscou. Por exemplo, uma delegação Católica-Ortodoxa, que inclui a ACN, visitou refugiados no Vale do Beca e se reuniu com representantes das Igrejas locais no Líbano e na Síria em Abril de 2016.

Eu voltei de uma outra viagem ao Líbano, durante a qual o Metropolita Hilarion, de Volokolamsk na Rússia, se encontrou com representantes de todas as denominações locais. Mons. Kirill Klimovich, bispo da diocese católica de Irkutsk, também esteve conosco na Rússia. O principal objetivo deste encontro foi o desenvolvimento de um banco de dados para documentar a destruição da “infraestrutura espiritual”. Um outro assunto foi a restauração de locais sagrados destruídos pelo Estado Islâmico (EI) e serviços voltados para crianças e jovens da região. Nós informamos o Papa Francisco e o Patriarca Kirill sobre estes trabalhos.

Porque documentar a destruição é tão importante?

Para o EI, não se trata apenas de destruir prédios. Eles gostariam de destruir o “lar espiritual”, o interior das pessoas. Para as pessoas que estão lá, todos os símbolos e edifícios cristãos dão um sentimento de pertença, de ter raízes. O EI quer destruir essas pessoas, sua história …. É importante assegurarmos o testemunho dos mártires. Estes são crimes que precisam ser documentados, simplesmente para que não aconteçam de novo no futuro e por isso eles são lembrados. É por isso que gostaríamos de compilar as experiências individuais das pessoas e assegurar que as fontes sejam identificadas.

A ACN também está celebrando uma data: exatos 25 anos, no dia 13 de outubro de 1992, o Padre Werenfried van Straaten visitou pela primeira vez Moscou, para um encontro com o Patriarca Alexy II. Este encontro marcou o início de um programa para a Igreja Ortodoxa Russa. Como você descreveria esta cooperação hoje?

Desde então, uma relação de confiança se estabeleceu com a Igreja Ortodoxa em vários níveis. Nós superamos obstáculos e eu estou muito feliz com a forma atual de cooperação atualmente. Eu tenho certeza que o nosso trabalho no passado ajudou a tornar possível o encontro em Havana. Agora, nós temos a importante tarefa de colocar Havana em ação. Esta é a razão pela qual nós formamos um grupo misto de Católicos Russos, membros da Igreja Ortodoxa Russa e a ACN. O trabalho deste grupo esta sendo supervisionado pelo Arcebispo de Moscou Paulo Pezzi do lado católico; pelo Metropolita Hilarion do lado ortodoxo, e por Johannes Heereman, presidente executivo da Fundação Pontifícia ACN.

E quais são os resultados?

Além das campanhas para o Oriente Médio, exemplos concretos são os auxílios às mulheres que se encontram em situação crítica, como as muitas vítimas de violência doméstica, que passam por dificuldades e sofrimento, ou aquelas que necessitam de abrigo porque decidiram não abortar. É importante fortalecermos os valores cristãos, como a família e a proteção à vida. Nós também estamos promovendo uma troca de experiências entre católicos e ortodoxos. Por exemplo, uma delegação de Itália e Portugal se encontrou pela primeira vez com ortodoxos russos em São Petersburgo para discutir o problema da dependência de drogas. O Seminário Católico em São Petersburgo sediou este encontro, que contou com a presença do Pró-reitor do Seminário Ortodoxo bem como vários padres ortodoxos com formação profissional de médicos, psicólogos, etc. e que conhecem muito sobre o assunto. Para nós, esta é a expressão do ecumenismo vivo, a serviço das pessoas e no espírito da responsabilidade conjunta.

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