//“A visita do Papa é um presente de Deus”

“A visita do Papa é um presente de Deus”

2015-04-13T19:40:44+00:00abril 13th, 2015|Notícias|

Quandoo Papa visitar a República Centro-Africana em novembro desse ano, ele chegará em um país que recentemente passou por dois anos de uma terrível guerra civil. Graças a presença de tropas de paz da ONU, o país retornou ao estágio de calma desde setembro passado. No entanto, a paz ainda é frágil e existem muitas pessoas que ainda possuem armas escondidas em casa. Durante a visita da AIS, o Arcebispo Dieudonné Nzapalainga de Bangui, capital da República Centro-Africana, falou a respeito da importância da visita do Papa para o seu país, devastado pela crise, e sobre os acontecimentos recentes.

AIS: Em novembro o Papa Francisco fará uma visita a República Centro-Africana. O que essa visita significa, para você pessoalmente e para as pessoas do seu país?
Dom Nzapalainga: Para mim pessoalmente, a visita papal é um sinal da bondade de Deus e um consolo. Ele está vindo a nós como um pai – e justamente em um momento em que nós acabamos de passar por uma longa crise que deixou para trás cicatrizes profundas. Estou esperando que ele traga uma nova força para o povo da República Centro-Africana. A mensagem de vida que o Papa vai trazer com ele é uma mensagem de paz e reconciliação. E é exatamente isso que o nosso país precisa com urgência.

AIS: Desde de setembro do ano passado houve 8.000 soldados da ONU alocados na República Centro-Africana. Isso significa que, a paz agora voltou a sua terra natal?
Dom Nzapalainga: Infelizmente não, ainda não. Mas as tropas de paz tiveram sucesso em trazer uma medida de calma ao nosso país. Até agora, particularmente em Bangui, nós quase não vemos mais lutadores armados nas ruas. As vezes eu comparo a República Centro-Africana com um homem doente. As tropas de paz são como os médicos, que restauraram nosso país a condição de convalescência.  Mas temo que a violência emerja novamente quando as tropas de paz forem embora. A retirada das tropas de paz europeias, que tem garantido a calma, sobretudo nos bairros muçulmanos, está prevista para 15 de março. Faço um apelo para a Comunidade internacional manter as tropas por mais tempo em Bangui. Nosso país precisa desses soldados para manter essa frágil paz.

AIS: O que, em essência, está na raiz da insegurança que tem abalado tanto a República Centro-Africana desde 2012 ?
Dom Nzapalainga: A guerre civil é um conflito entre dois grupos de rebeldes, o Seleka e o Anti-Balaka. Ambos cometeram crimes terríveis, assassinatos, estupros, destruição de igrejas e vilarejos inteiros. Os rebeldes pertencentes ao Seleka estão acima de todos os mercenários do Chade e do Sudão e não falam nem francês e nem sango, que é a linguagem própria do nosso país. Os lutadores do Anti-Balaka são um tipo de movimento popular que se desenvolveu em reação aos ataques realizados pela Seleka. Muitas vezes as pessoas falam erroneamente de um conflito religioso. Isso não é verdade. Nem um único líder religioso nem dos muçulmanos e nem dos cristãos é ativo entre os grupos Seleka e Anti-Balaka.

AIS: Qual o papel que as igrejas tem que desempenhar no conflito então?
Dom Nzapalainga: Líderes muçulmanos e cristãos estão lado a lado. Apenas após alguns dias do início dos distúrbios em 2012, juntamente com o Pastor protestante Nicolas Guerekoyame e o Imam muçulmano Oumar Kobine Layama, eu apelei pela paz e lancei uma série de iniciativas de reconciliação inter-religiosas. E também viajei várias vezes, junto com esses dois clérigos para a Europa a fim de solicitar apoio para o nosso país.

AIS: Como é a vida diária para o povo da República Centro-Africana?
Dom Nzapalainga: Ainda não se pode falar em qualquer senso de normalidade. Em Bangui há cerca de 30.000 pessoas ainda vivendo em campos de refugioados, no aeroporto, em várias igrejas católicas diferentes e também na mesquita central. Cerca de 8.000 pessoas buscaram abrigo no seminário católico e outras 4.000 ou mais nos mosteiros dos Padres Carmelitas. Eles estão vivendo em condições opressivas, ainda estão profundamente traumatizados e com medo. Muitos não conseguem voltar para casa porque suas casas foram destruídas. As crianças não podem ir a escola, enquanto que para os homens e mulheres não há trabalho.

AIS: Eleições foram marcadas inicialmente para fevereiro de 2015 na República Centro-Africana. Como é a situação política agora e quando você espera que as eleições sejam realizadas?
Dom Nzapalainga: No momento não existe possibilidade de eleições livres em nosso país. As pessoas ainda estão profundamente com medo e a desconfiança ainda é comum. A prioridade deve ser a segurança e o desarmamento dos rebeldes. Somente depois disso que poderemos começar a pensar em eleição. Estou depositando uma grande esperança em um fórum que será realizado em abril para o qual políticos e representantes de vários movimentos diferentes  foram convidados. Pode ser que se torne uma base para a paz. A única resposta para a violência é o diálogo.

AIS: Juntamente com os outros nove bispos católicos de seu país, você tem apelado para a reconciliação e diretamente pediram a população para entregar suas armas nas paróquias. Seu apelo encontrou ouvidos abertos?
Dom Nzapalainga: No mesmo dia, após o apelo, um engradado de armas foi entregue a mim. Mas, enquanto as armas permanecerem escondidas nas casas das pessoas não será possível quebrar o ciclo vicioso da violência. A solução para o conflito não está nas armas, mas no diálogo.

AIS: ArcebispoNzapalainga, você tem confortado aqueles que suportaram sofrimentos terríveis. Ao mesmo tempo você também está estendendo as mãos para as pessoas que cometeram esses crime. O que você sente quando faz isso?
Dom Nzapalainga: Uma semana atrás eu visitei na prisão dois dos líderes do Anti-Balaka. É importante para mim, ouvir também as pessoas que tenham cometido crimes. Apesar de tudo, Deus está lá para todas as pessoas e, portanto, eu também estou lá para todas as pessoas. Deus odeia o pecado, mas ama os pecadores. Um dos líderes do Anti-Balaka falou comigo por duas horas, e abriu seu coração para mim. Ele me disse “Até agora ninguém esteve disposto a me ver”.

AIS: Você tem visto um sofrimento terrível, e as vezes deve ter temido pela sua vida. Como você consegue manter o seu sentimento de esperança?
Dom Nzapalainga: Eu sou cristão, e como tal tenho esperança. Eu gosto de comparar esperança com um par de óculos. Sem os óculos da esperança, tudo é obscuro, mas com os óculos, eu posso ver coisas que outros não conseguem. Posso passar essa esperança aos outros. Como bispo eu sou um guardião, que deve vigiar o seu rebanho, o povo de Deus, e lhes dar esperança. Nas pessoas de Deus, estão incluídas todas as pessoas, e não somente os cristãos.

AIS: Nossa caridade está sempre apoiando várias iniciativas em seu país. Que tipo de ajuda seu país mais precisa?
Dom Nzapalainga: A primeira e mais importante forma de ajuda é a ajuda espiritual, em outras palavras, peço para que as pessoas ao redor do mundo orem por nós. As doações que recebemos da Ajuda à Igreja que Sofre, por exemplo, um carro, uma escola ou um suporte financeiro para treinamento dos nossos sacerdotes, servem para ajudar a tornar Cristo mais conhecido e assim trazer esperança. Neste caminho, gradualmente nossa escuridão tem se tornado luz.

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