//A mistura toxica de Extremismo religioso e Nacionalismo

A mistura toxica de Extremismo religioso e Nacionalismo

2016-06-06T17:26:04+00:00junho 6th, 2016|Notícias|

Muitos cristãos em Israel estão com medo. Eles se sentem ameaçados por extremistas judeus. O ataque incendiário realizado por estes extremistas em junho do ano passado, no mosteiro beneditino de Tabgha, foi notícia internacional. “O que vem a seguir?”, o bispo Auxiliar do Patriarcado Latino, Dom Shomali, perguntou ansiosamente em uma entrevista à Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), após o incidente. Mais ataques se seguiram neste ano. Por exemplo, foram feitas pixações anti-cristãs nas paredes da Abadia da Dormição em Jerusalém. As pixações diziam: “morte aos cristãos”.

O rabino extremista Bentzion Gopstein aparece regularmente em manchetes. Ele é chefe do grupo Lehava, que se opõe radicalmente a mistura de judeus com não-judeus em Israel. Assim, os partidarios do rabino fizeram demonstrações violentas em 2014 contra um casamento entre uma noiva judia e um noivo muçulmano. Os extremistas também estão de olho nos cristãos de Israel. Em agosto do ano passado, o rabino Gopstein pediu publicamente às autoridades israelenses para queimar todas as igrejas cristãs em Israel, dizendo que este era o dever de um Estado judeu. Antes do Natal, os partidarios de Gopstein se manifestaram contra a celebração do Natal cristão em Jerusalém, que também teve a participação de judeus. Num apelo publicado na Internet, Gopstein apelou às autoridades para proibir todas as celebrações do Natal cristão em Israel. Ele acredita que, como ocorreu históricamente, os cristãos continuam a trabalhar com o objetivo de converter judeus e eles devem, portanto, ser deportados. “Vamos jogar os vampiros fora da nossa terra antes que eles bebam o nosso sangue de novo”, disse Gopstein. E continuou, dizendo que a igreja cristã é o maior inimiga do judaísmo hoje, como ocorreu históricamente. “Se os judeus não podem ser mortos, eles ainda podem ser convertidos”, disse Gopstein sobre o que os cristãos pensam.

A Igreja Católica na Terra Santa abriu um processo criminal contra Gopstein por causa do incitamento que significou o seu apelo para destruir as igrejas cristãs. Em um comunicado, os bispos católicos disseram que a comunidade católica na Terra Santa estava com medo e se sente vulnerável. E quando o rabino Gopstein chamou os cristãos de sanguessugas por ocasião do Natal, osbispos sentiram que a paz pública em Israel estava em risco. “As intimidações recorrentes e as provocações dele são uma ameaça real para a coexistência pacífica no país”, declararam. “É preciso condenar isto firmemente e empregar todos os meios necessários contra isto no interesse de todos os cidadãos.”

O rabino foi recentemente interrogado pela polícia. O governo pode tomar medidas contra ele em breve. Gopstein foi preso e interrogado em várias ocasiões no passado. No entanto, até este ponto, acusações formais num tribunal nunca foram concretizadass ou dada uma sentença pronunciada.

O Padre jesuita David Neuhaus, no entanto, não acredita que comentários como os de Gopstein sejam o principal problema dos cristãos em Israel. Por ordem do Patriarcado Latino, o jesuíta supervisiona o trabalho pastoral dos católicos de língua hebraica em Israel. Nascido como filho de pais judeus na África do Sul, ele emigrou para Israel e lá se converteu para o catolicismo. Ele está convencido de que “a retórica de Gopstein não é o que causa os mais graves danos para os árabes palestinos cristãos de Israel. Eu acho que a maioria dos cristãos e dos muçulmanos palestinos estão perfeitamente conscientes de que eles não são tratados de forma igual e que a discriminação está bem viva em um estado definido como judeu”, diz Neuhaus. “Esta discriminação é estrutural e o seu impacto mais sentido é no orçamento para o desenvolvimento do setor árabe – isto é mais palpável em educação, saúde, emprego, bem-estar, etc”.

Mesmo que Gopstein e outros extremistas sejam poucos em número, ele tem os seus partidários, estima Neuhaus. “Há certamente muitos israelenses que compartilham os seus pontos de vista. Mas apenas uns poucos se expressam com tal desprezo completo para com outras religiões”. O Padre Neuhaus acredita que o judaismo não faz o suficiente para combater as opiniões do rabino Gopstein. “Embora eu ache que muitos podem estar desgostosos com a sua vulgaridade, o que é necessário é uma campanha educativa entre os judeus ortodoxos que ensine o respeito pelas outras religiões e nacionalidades”.

Como estudioso da Bíblia, Neuhaus está agora convencido de que o extremismo religioso e o desprezo pelas outras religiões de fato tem uma base nas três tradições religiosas do Oriente Médio. “As Sagradas Escrituras parecem promover a ideia de um povo eleito que é o instrumento do poder de Deus e que o erro deve ser combatido até mesmo com violencia. Não tenho certeza de que isto seja algo particularmente judaico. O que está claro é que, quando este extremismo religioso se combina com a ideologia nacionalista, essa mistura é extremamente tóxica”. Neuhaus tem certeza de que aqueles que são ofendidos e ameaçados por essa mistura tóxica devem se unir para combater conjuntamente essas idéias, fornecendo interpretações alternativas destas mesmas escrituras: “Eles devem ajudar uns aos outros a desenvolver estratégias por meio das quais o extremismo religioso possa ser erradicado”.

De acordo com o Padre Neuhaus, muitos judeus se lembram e talvez até se debruçam sobre as feridas acumuladas ao longo da história por esta que sempre foi uma minoria pequena, marginal. “E essas feridas eram mais profundas e mais mortais em terras onde os cristãos eram a maioria do que nas terras onde os muçulmanos eram a maioria”. No entanto, Neuhaus lamenta que muito poucos judeus estão dispostos a levar a sério o fato de que em Israel os judeus são agora a maioria dominante. “O desprezo que eles tem para com as pessoas definidas como “não-judeus” pode ter efeitos desastrosos da mesma forma como antes.

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