//“A Coreia do Sul está repleta de alegre expectativa”

“A Coreia do Sul está repleta de alegre expectativa”

2014-08-15T18:08:16+00:00agosto 15th, 2014|Notícias|

Desde o dia 14, até segunda-feira, 18 de agosto, o Papa Francisco visita a Coreia do Sul. Em entrevista à AIS Internacional, o novo diretor do escritório sul-coreano da Associação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, Johannes Klausa, fala sobre o pano de fundo para esta visita e as expectativas no país.

AIS: Por que o Papa Francisco decidiu visitar a Coreia do Sul?
Johannes Klausa: Claramente, o Papa tem um carinho especial pelos jovens do mundo, como portadores de Fé; isso ficou evidente desde a escolha do destino de sua primeira viagem ao exterior – para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Desta vez, durante a visita do Papa, a juventude católica da Ásia será igualmente reunida na Coreia para o “Dia da Juventude da Ásia”. Papa Francisco foi inteligente e aproveitou a oportunidade de dirigir-se daqui aos jovens de todo o continente.

Como alguns outros países da Ásia, a Coreia é símbolo para duas questões – a perseguição e o crescimento dos cristãos – que são particularmente importantes para o Santo Padre. Em 1953, após o fim da Guerra da Coreia, havia cerca de 190 mil católicos na Coreia. Hoje, apenas seis anos depois, já somos mais de 5,4 milhões.

Mas, ao mesmo tempo, a Igreja coreana é construída sobre o sangue e o testemunho de quase 10.000 mártires. Aqueles cristãos que se recusaram a negar publicamente o seu Deus geralmente pagam com suas vidas. Já em 1984, o Papa João Paulo II canonizou 103 desses mártires.

O foco central desta visita será igualmente a beatificação de outros 124 destes mártires, entre eles Paul Yunji Chung. Apenas um deles era um sacerdote – a Igreja da Coreia era uma Igreja dos leigos. No final do século 18, quando o primeiro sacerdote realmente pisou em solo coreano, já havia 4.000 católicos do país.

Finalmente, assim como alguns outros países asiáticos, a Coreia necessita da atenção pública mundial. Depois da Terra Santa, a península da Coreia é um dos principais focos de conflito no cenário político do mundo, que se inflama com assustadora regularidade, enviando ondas de choque em todo o mundo. Não é impossível que a visita papal possa trazer novas iniciativas para a relação atualmente congelada entre as duas Coreias.

AIS: Você poderia descrever algo da vida paroquial católica na Coreia do Sul para nós?
Johannes Klausa: Pertencer a um grupo social particular é de importância central na Coreia – muito mais importante do que na cultura ocidental. No próprio grupo da escola e da universidade tende a determinar um círculo de amigos para a vida e é um ponto de partida central para o senso de auto identificação.

No mundo do trabalho, é raro novas amizades; além disso, é muito difícil ingressar em novos grupos. As comunidades eclesiais são uma das poucas exceções. Na verdade, um grande número de coreanos só encontra seu caminho para a fé na idade adulta. É claro que também existem famílias que foram Católica por gerações, mas estes são uma minoria hoje. Na Igreja, novos membros são recebidos de braços abertos na comunidade e, como resultado, as paróquias também são uma espécie de ponto de encontro para aqueles que procuram amizade, de todas as idades.

O culto religioso na Coreia é muito reverente, emocional e bem cuidadoso. Por exemplo, na catedral de Myeongdong, dez missas são celebrados aos domingos. Igualmente impressionante é outro dado estatístico publicado pela Conferência dos Bispos, enquanto os católicos da Coreia somam pouco mais de 5,4 milhões, foram confessar-se, durante o ano de 2013, mais de 4,6 milhões de pessoas.

AIS: Em sua opinião, quais são as prioridades papais na visita? Qual será o principal objetivo do Papa Francisco e que ênfases e expressões que podemos esperar?
Johannes Klausa: A ênfase principal desta visita papal pode ser muito bem entendida a partir do programa. O título de sua visita é o versículo de Isaías 60: 1 “Levanta-te, resplandece, por que vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti.” É uma exortação direta a cada um dos fiéis.
No Dia da Juventude, em Daejeon, o Papa abordará diretamente os jovens católicos da Ásia. A reunião será realizada sob o lema: “Juventude da Ásia, acordada! A glória dos mártires brilha sobre você”.

A beatificação dos 124 mártires será, naturalmente, um ponto alto de sua viagem à Coreia
Também faz parte de seu programa de cinco dias uma reunião com as principais figuras de outras religiões e a visita a um grande projeto social da Igreja Católica. Especialmente na Coreia do Sul, onde a busca pela riqueza material e status social é muitas vezes supervalorizada.

Na grande missa, no Estádio da Copa do Mundo, em Daejeon, o Papa irá lembrar as vítimas do desastre no metro em Seul e falar com seus familiares. Atualmente nenhum visitante de alto escalão para a Coreia pode visitar o país sem expressar simpatia por este evento chocante. É também de se esperar que o Papa Francisco fale sobre a questão do tráfico de seres humanos, ao mesmo tempo lembrando o terrível destino das chamadas “mulheres de conforto” que foram forçadas a prostituir-se na zona de ocupação japonesa e cujo destino foi abafado na Coreia, por vergonha, até o ano de 1990. Algumas das poucas sobreviventes desta atrocidade estarão presentes na missa de reconciliação.

AIS: Quão forte é a presença pública da Igreja Católica na sociedade sul-coreana?
Johannes Klausa: A Igreja Católica na Coreia do Sul tem uma reputação muito elevada. Ela é vista como tolerante e modesta e goza de autoridade moral e integridade na percepção do público. Em uma pesquisa recente, que perguntou: “Que religião é a mais confiável na sua opinião”, a fé católica ficou em primeiro lugar, com 31,7%.

Uma das razões para esta imagem positiva pode ser o fato de que a Igreja coreana sempre ter estado do “lado certo da história” e que sua fé não foi imposta por missionários estrangeiros, mas testada pelos estudiosos coreanos, vista como boa e depois trazida para o país.

AIS: Quais são as intenções especiais de oração que nosso irmãos cristãos sul-coreano gostariam de pedir a nós?
Johannes Klausa: Entre as intenções importantes para suas orações pela Coreia, além da constante necessidade de rezar pela paz, reconciliação e reunificação. Por exemplo, uma oração por uma “desaceleração” e uma diminuição da pressão intolerável que é exercida de cima para baixo dentro de nossa sociedade. Ou talvez pela forma como a sociedade está dilacerada entre a tradição e a modernidade, pobres e ricos, progressiva e as forças conservadoras.

AIS: A AIS tem uma longa história na Coreia do Sul. Já em 1960 Padre Werenfried van Straaten, nosso fundador, visitou este país – na época ainda profundamente marcado pela guerra – e provocou uma onda de generosidade para a Coreia na Europa. Você pode nos contar um pouco de como essa ajuda tem se desdobrado desde então?
Johannes Klausa: Antes de retornar à Coreia, em maio, eu percorri através dos arquivos em nossa sede na Alemanha, todos os pedidos já feitos. Em centenas deles, pude encontrar inúmeros testemunhos ao empenho do Padre Werenfried eAIS para a Coreia.

Há evidências de pelo menos duas viagens aqui pelo “Padre Toucinho”, em 1961 e 1962, ele descreveu Seul como uma “cidade da miséria”. Como os tempos mudaram!

Contribuímos com grandes somas a determinados projetos de construção individuais, tais como a construção e uma ampliação do seminário em Seul. Mas eu também encontrei vários projetos menores, como suporte para irmãs e irmãos, para os livros, para o transporte e veículos e apoio regular a instituições católicas e indivíduos, os quais – graças à bondade dos nossos benfeitores – ajudou a construir Igreja coreana de hoje. Até agora a Igreja Católica na Coreia está muito bem financeiramente. Nunca tinha visto tantas igrejas bem equipadas e modernas e centros paroquiais. A semente, para que AIS também contribuiu, já encontra frutos.

AIS: Você mesmo é, por assim dizer, o mais recente “marco” nesta longa estrada de ajuda. Quais são seus planos para o futuro para a nova sede da AIS no país?
Johannes Klausa: No contexto da história da Igreja coreana, seus mártires, a sua própria experiência de sofrimento, pobreza, destruição e guerra, mas também a consciência de que as coisas podem mudar e que o avivamento é possível. Eu acho que a Coreia, como quase nenhum outro país, desenvolveu uma profunda compreensão do que é a AIS. É uma compreensão que eu agora espero construir, aqui em Seul.

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