Em 1962 o Padre Werenfried viajou pela América Latina. A pobreza que ele viu ali motivou-o a galgar o famoso Corcovado e lamentar a sua dor diante do Cristo Redentor. Num bilhete ele havia anotado os nomes das crianças que tinha visto na miséria mais amarga.

Este é apenas o editorial do Boletim de Outubro de 2009.
Você pode baixar o boletim na íntegra ao final deste texto (anexo).

 

Ele os leu para o Cristo: Graça Maria, Oswaldo, Francisco – “nomes nobres de livres filhos de Deus, destinados a viver sem culpa desde já no inferno, ainda nesta terra”.

Do seu coração elevou-se a queixa dos pobres: “Senhor Jesus Cristo, eu vim de bem longe para falar contigo em nome dos pobres. No caminho, com horror, encerrei em meu coração a infelicidade de milhões de pessoas. Permite-me dizer-te que aquilo que eu vi nesta parte do mundo é um escândalo.” E ele chega a essa conclusão: “Eu sei, Senhor, que não posso te censurar. A censura atinge a nós.” Eu nasci na América Latina. O inferno, no qual o Padre Werenfried viu vivendo os filhos de Deus, existe ainda hoje. Mais do que nunca a miséria deles é causada pela sociedade. Eles vivem não só na América Latina, mas também na África, na Ásia ou no Leste Europeu. No meu trabalho a serviço da Ajuda à Igreja que Sofre eu ouço diariamente o seu grito. A conversação do Padre Werenfried com o Cristo é mais atual do que nunca. A encíclica do Santo Padre Caritas in veritate é a resposta ao grito dos pobres do nosso tempo. Por isso redigi em julho uma carta ao Papa Bento XVI, na qual eu lhe agradeço pelo fato de ele opor àquele grito não um silêncio, mas respostas que podem mudar o mundo:

“Santo Padre, por meio do meu trabalho eu escuto a queixa dos pobres em mais de 140 países do mundo. Eu me permito falar ao senhor em nome deles. Obrigado pelo seu alerta contra o escândalo da injustiça. Obrigado por indicar-nos o caminho de uma esperança que não é apenas mais uma ilusão. Obrigado pela encíclica Caritas in veritate. Suas palavras anunciam que pobreza e injustiça no mundo não são um fato do destino, como uma catástrofe natural. O senhor nos convoca a nos tornarmos conscientes da nossa liberdade. No meio da crise financeira o senhor nos mostra que não é possível construir uma solidariedade justa simplesmente por meio de medidas financeiras.Mais ainda do que uma mudança das leis e diretrizes, o senhor exige fortes decisões éticas na convivência nacional e global. O senhor tem a coragem de exigir, além disso, um espaço de fraternidade incondicional, generosa e criativa. Obrigado, Santo Padre, pelo seu realismo sóbrio e pela verdade do amor, sem concessões.”

Rezemos para que o grito dos pobres não esmoreça também na nossa vida sem ser escutado. Vamos até o Cristo. E perguntemo-nos, como o Padre Werenfried, o que é que nós podemos fazer.