Terça, 24 Março 2015 14:55

"Eles são os verdadeiros mártires"

Escrito por Oliver Maksan
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Dom Kyrillos William Dom Kyrillos William

Em meados de fevereiro, quando surgiram as notícias do assassinato de 21 cristãos ortodoxos coptas egípcios pelos terroristas do Estado Islâmico (EI), na Líbia, todo o Egito ficou em estado de choque.

A imagem destes cristãos vestindo trajes cor laranja, ajoelhados em frente aos seus carrascos, o sangue deles escorrendo e se misturando com águas do Mediterrâneo quando foram bestialmente decapitados, tudo isso impressionou profundamente a memória coletiva deste país às margens do rio Nilo. A Igreja Ortodoxa Copta já reconheceu como mártires estes 21 cristãos mortos por causa de sua fé e os incluiu no calendário dos santos. Mas, e os católicos, também os consideram mártires? ’’Sim, sem dúvida’’, diz Dom Kyrillos William Samaan, bispo católico copta de Assiut, no Alto Egito. “O próprio Papa Francisco disse isso logo após do assassinato. Eles foram mortos porque eram cristãos. Os terroristas estavam caçando cristãos para raptar. As vítimas confessaram sua fé até o final. Eles permaneceram fiéis a Jesus. As últimas palavras deles foram – Senhor Jesus, tende piedade de nós! Assim, eles são verdadeiros mártires, para nós católicos também’’ disse o bispo.

O bispo Dom Kyrillos comentou que logo após a atrocidade houve um misto de tristeza e raiva. “Porém, a reação forte de nosso presidente e os ataques aéreos que ele ordenou contra as posições do EI na Líbia trouxe uma certa confiança ao povo. Nós, cristãos, ficamos especialmente tocados pela visita feita pelo presidente, que é muçulmano, ao Papa Ortodoxo Copta, Tawadros, para expressar suas condolências’’. O bispo conta também que houve nessa época muitos belos sinais de solidariedade. “O governador da província de onde provinha a maioria dos mártires autorizou a construção de uma grande igreja em memória deles, às custas do estado. Além disso, a vila onde eles moravam teve seu nome mudado em sua homenagem. Ela agora se chama “Vila dos Mártires’’.

O Egito está no caminho de uma renovação. Muitos cristãos, relatou o bispo, disseram que receberam condolências de muçulmanos naquela ocasião. Porém, também houve reações de ódio. Um sheique islamista radical declarou que aprovava os assassinatos – “o estado islâmico agiu corretamente abatendo as ovelhas cristãs’’, publicaram os jornais egípcios.

Porém, tais atitudes não são representativas, estima D. Kyrillos. “Eu diria que os assassinatos provocaram uma aproximação entre cristãos e muçulmanos. O sentimento predominante é que o ataque foi contra o povo egípcio. Isto é importante, pois mostra que somos todos egípcios, qualquer que seja nossa religião’’. Foi justamente esse o tom que o presidente do Egito, Sisi, havia mantido ao fazer uma visita surpresa à catedral ortodoxa copta do Cairo por ocasião do último Natal. “Muitos o aguardavam, mas ninguém de fato esperava que o chefe muçulmano do governo visitasse a catedral cristã copta na festa do Natal. Ele falou de improviso na ocasião. E sua mensagem foi: 'Nós todos, cristãos e muçulmanos, somos egípcios.' Ele deu grande ênfase na ideia de cidadania comum. O povo ficou muito contente. Essa visita foi um forte símbolo. É preciso ter em mente em que contexto ela se deu. Com efeito, muitos islamistas radicais dizem que não se deve cumprimentar os cristãos por ocasião de nossas festas religiosas, por ser anti-islâmico. A visita do presidente foi uma respostas a tais ideias. Eu diria que isto foi uma virada na historia dos cristãos do Egito’’.

Isto seria impensável ainda pouco tempo atrás, sublinha o bispo. “Durante a presidência de Morsi, os radicais achavam que tinham sinal verde para atacar os cristãos. Muitos cristãos se sentiam estrangeiros em seu próprio país. Os radicais achavam que nós devíamos ir embora, que todos tínhamos vistos para países ocidentais e que devíamos emigrar para o Canadá, ou para a Austrália’’. O ponto culminante das violências anti-cristãs ocorreu em agosto de 2013. Na diocese de Dom Kyrillos, os muçulmanos radicais também incendiaram igrejas e comércios de cristãos. A organização radical Irmandade Muçulmana queria se vingar dos cristãos que eles culpavam pela deposição do presidente Mohammed Mursi, que era próximo a este movimento. “Hoje, este sentimento de ameaça desapareceu. Com o presidente Sisi, podemos olhar o futuro com esperança’’.

Dom Kyrillo não teme uma eventual ressurgência dos islamistas por ocasião das próximas eleições legislativas. “Eu acho que os egípcios viram claramente durante o governo da Irmandade Muçulmana como e para onde os radicais islâmicos queriam conduzir o país. Os irmãos muçulmanos colocam seus interesses acima dos do país. Muitos muçulmanos que votaram neles, hoje também compreendem isso. Os egípcios não querem um retorno deste passado. As pessoas sabem quem elas querem eleger e quem não querem. É assim também que um jovem estudante católico da cidade de Sohag, no Alto Egito, vê as coisas – “Com o presidente Sisi as coisas evoluem na boa direção. Nele, temos confiança. Ele pediu para o Islã se reformar. Foi uma boa coisa. Mas é claro que um homem só não poderá mudar a mentalidade de todo um país de um dia para o outro. Não acredito que isso possa acontecer. Temos de ter paciência“.

Lido 1551 vezes Última modificação em Segunda, 23 Março 2015 15:20

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