Sexta, 28 Abril 2017 14:25

Papa Francisco no Egito

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Padre Samir é especialista para o Vaticano em diálogo cristão-muçulmano. Padre Samir é especialista para o Vaticano em diálogo cristão-muçulmano.

O padre Samir Khalil Samir, sacerdote jesuíta especialista no Islã e professor do Instituto de Estudos Orientais em Roma, visitou o escritório canadense da ACN - Ajuda à Igreja que Sofre - no dia 20 de abril de 2017. Um egípcio, nascido no Cairo, nos deu esta entrevista à luz da próxima visita do Papa ao Egito. Perguntamos a ele sobre a visita papal, sobre a importância do diálogo entre o Islã e o cristianismo e sobre o medo de ver o Oriente Médio esvaziado de cristãos. Aqui estão alguns trechos da entrevista:

ACN: O que você diria ao Papa Francisco em relação à visita que ele fará ao Egito? Você diria para ele ficar em Roma ou ir em frente com a sua visita?

Padre Samir: Sendo o homem que ele é, acho que ele deve ir. Ele não é alguém que tem medo. Ao mesmo tempo, considerando a possibilidade de uma tentativa de assassinato, acredito que o Egito será capaz de protegê-lo e garantir que não haja elementos perigosos ao redor - mesmo que apenas por seu próprio senso de honra. Olhando desta forma, eu acho que tudo deve ir em frente normalmente.

Além disso, há o caráter do próprio Papa Francisco, que poderia muito bem dizer: "Não tenho medo de nada e estou no meio do povo. E se eu morrer, bem, eu sou como qualquer outra pessoa, simplesmente porque aconteceu de estar neste lugar". Isso pode explicar porque ele decidiu ir em frente com a sua visita.

Além disso, há muito tempo que ele tem desejado refazer os laços entre o Vaticano e o Islã. E isso é o que ele me disse quando eu tive uma conversa de meia hora com ele há alguns meses. Ele me disse: "Por que insisto no fato de que o Islã é uma religião de paz? Porque precisamos, antes de tudo, reavivar nossa amizade com os muçulmanos e com Al Azhar".

Por que é necessário "unir novamente nossos laços"? O que aconteceu?

Permitam-me recordar o contexto: houve o ataque em Alexandria à Igreja Copta no Natal, há seis anos. Um homem-bomba se explodiu e houve dezenas de mortes. Poucos dias depois, o Papa Bento XVI, em um encontro com os embaixadores na Santa Sé, disse: "Peço ao presidente da República Egípcia que proteja os cristãos". Em resposta, o Imã Ahmed el-Tayeb, reitor da Universidade Al Azhar, declarou que era inaceitável que o Papa interferisse na política egípcia e então cortou relações com Roma. Hoje, depois de inúmeras tentativas infrutíferas, as relações foram retomadas. E foi o principal objetivo do Papa Francisco restabelecer as relações com o Islã e com a Universidade Al Azhar, em particular, que representa a maioria dos muçulmanos no mundo - cerca de 80%. Ela representa uma autoridade moral e intelectual incontestável para eles.

Padre Samir, por que é importante manter um diálogo inter-religioso com o Islã?

Primeiro, porque o Islã é a segunda maior religião do mundo, com mais de 1,5 bilhão de muçulmanos espalhados em quase todos os países do mundo. Não podemos ignorá-lo. Segundo, porque o Islã é uma religião monoteísta, ao lado do Judaísmo e do Cristianismo. E, portanto, temos de ser capazes de dialogar com eles. Esse é o aspecto essencial, eu acho. Não se trata de uma meta política. Isso se resume a dizer: procuremos nos entender. Da mesma forma como mantemos um diálogo com os judeus.

As pessoas estão dizendo que o Oriente Médio está em processo de se esvaziar de cristãos. O que posso fazer para mudar a maneira como o vento está soprando? Mesmo muitos muçulmanos não querem que esta situação aconteça.

A maioria dos muçulmanos diz: "Precisamos dos cristãos". Houve uma transmissão de rádio no Egito que impressionou todos. O tema do programa de oito minutos foi sobre as escolas cristãs que educaram a classe intelectual do Egito nos séculos XIX e XX.

As pessoas também podem ver o Líbano, que é o único país do mundo árabe com um certo grau de paridade, precisamente porque foram os cristãos que o construíram - embora hoje não representem mais de 35% da população. No Parlamento, os muçulmanos querem manter o equilíbrio de 64 muçulmanos e 64 cristãos, porque eles afirmam que isso é essencial. É reconhecido por todos os muçulmanos que pensam sobre isso.

Além disso, quanto ao desaparecimento dos cristãos no Oriente Médio, no Egito são eles, por assim dizer, os nativos! As pessoas estão conscientes de que, se desejam manter a consciência nacional, não podem eliminar os cristãos. Infelizmente, por razões que são políticas, econômicas e religiosas, os cristãos estão deixando, cada vez mais o país. E o que está acontecendo no momento é o que é desejado pelo grupo Estado Islâmico/ISIS/Daesh. Mas eles são fanáticos. Globalmente falando, os muçulmanos não são fanáticos. Eles não têm a coragem de dizer que essas pessoas devem ser presas. Em vez disso, eles diz: "não tem nada a ver com o Islã", o que não resolve nada. Mas no fundo do coração, a maioria dos muçulmanos dizem: "não, é vergonhoso!"

O que devemos fazer agora, se eles devem ficar, é ajudá-los para que eles possam ficar em suas próprias casas. No Egito isso não é um grande problema, devido ao grande número de cristãos (quase 10 milhões). Mas no Iraque e na Síria, onde as casas dos cristãos foram destruídas, é preciso muita coragem para permanecer no país. Isso é o que os patriarcas estão fazendo, incluindo o Patriarca Louis Sako, dos Caldeus da Babilônia. Ele está lutando com todas as suas forças para impedir que os cristãos emigrem, para encorajá-los a permanecer, para salvar a Igreja local. E é a mesma coisa na Síria.

Temos que ajudá-los a permanecer. Ajudá-los financeiramente até onde pudermos, mas também ajudá-los moralmente, apoiando-os e tentando acabar com esse crime que é o grupo Estado Islâmico.



A ACN enviou ajuda para 3.000 jovens de todo o Egito irem em peregrinação ao Cairo para estar presentes durante a visita do Papa Francisco nos dias 28 e 29 de abril. A viagem dos jovens começou dia 25 de abril e inclui celebrações litúrgicas em vários santuários diferentes na estrada para o Cairo, a celebração da Santa Missa, confissões e uma visita aos hospitais no Cairo. O grupo vai incluir 250 representantes de cada diocese católica no Egito, além dos mil participantes da própria capital. Saiba Mais.


Lido 2671 vezes Última modificação em Quarta, 17 Maio 2017 10:16

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