Quarta, 30 Agosto 2017 16:37

"Agora e na hora de nossa morte"

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Juína, região Noroeste do Mato Grosso, a 735 quilômetros de Cuiabá, divisa do estadodo Amazonas e Rondônia. Um acidente de automóvel, que vitimou uma jovem mãe e sua filhinha, deixou um pai viúvo com duas crianças. Sensibilizados com a situação da família, a AME (Associação Ministério de Esperança), uma funerária comunitária criada pela Diocese de Juína, foi acionada para seu primeiro atendimento. Ainda sem o total preparo, mas com toda a boa vontade, os voluntários foram ao serviço. Uma parte da equipe prestou conforto e apoio ao viúvo, outros foram em busca das urnas funerárias. Um trabalho difícil, com pouca estrutura, mas marcado pela emoção. Diante das precárias condições financeiras, a AME realizou o funeral sem custo algum. O viúvo é homem de fé e depois se tornou voluntário nos trabalhos da equipe.

Antes da AME só havia uma funerária em Juína, cujos preços eram muito elevados: “Pessoas perdiam seus bens na hora de sepultar um ente querido, até a terra perdiam, sem contar os maus-tratos e a falta de preparo” – de acordo com o testemunho das pessoas ligadas às famílias – conta Dom Neri José Tondello, bispo de Juína. A ideia de uma nova funerária surgiu quando o primeiro bispo da diocese, Dom Franco Dalla Valle, percebeu que precisava agir em socorro do povo, atuando não só nas situações da vida, mas também na hora da morte. Ele idealizou uma funerária comunitária que se esforçasse para diminuir ao máximo os gastos com o sepultamento – já que contaria com a mão de obra voluntária – e que além disso oferecesse um atendimento humanizado, confortando com a esperança cristã àqueles que a chegada da morte de um familiar entristece. Enquanto ele progredia na elaboração do projeto, chegou a hora da sua própria despedida. Dom Franco faleceu no dia 2 de agosto de 2007, antes de concluir esse sonho. Mas a obra não parou, graças à disponibilidade dos voluntários. Quando Dom Neri José assumiu a diocese de Juína estabeleceu como uma das principais metas continuar os projetos de seu antecessor, Dom Franco. Com a ajuda da ACN, a funerária foi um dos primeiros a sair do papel e assim nasceu a AME.

No início os voluntários se dividiam em todas as funções para atender as necessidades que surgiam. Famílias carentes, indigentes, comunidades indígenas, todos eram atendidos com amor e respeito pela associação. Aos poucos a excelência do trabalho da AME foi reconhecida não apenas pelos moradores de Juína, mas também das cidades vizinhas que vinham em busca de seus serviços. Mesmo as pessoas com mais condições financeiras passaram a optar pela AME por conta do serviço humanizado, o que despertou também perseguição daqueles que há anos lucravam – muito além do justo – com a dor alheia. Não foi nada fácil no começo. Desconforto, mal-estar, algum tipo de perseguição aos voluntários. Mas nunca se desistiu de acreditar no projeto.

A razão da AME existir não é meramente profissional, mas principalmente transmitir a paz e a esperança na ressurreição àqueles que chegam para velar um amigo ou parente. O espaço da associação conta com quarto para pernoite, sala de descanso para os familiares, refeitório e lanche. Até os ornamentos fúnebres básicos são usados sem custo algum. A ideia de Dom Franco deu tão certo que já se expandiu para outras cidades como Aripuanã e Colniza.

A AME é uma obra de misericórdia que se concretizou também porque a ACN, por meio dos seus benfeitores, apoiou a reforma do espaço onde está sediada a AME e na compra de uma caminhonete para transportar as urnas. Graças ao empenho de tantos envolvidos, a exploração de antes deu lugar à esperança e acolhimento por pessoas que, voluntariamente, fazem seu trabalho com amor e dedicação ao próximo.

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